O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Barham Salih, lançou nesta quinta-feira (11/06) o principal relatório anual da agência, Tendências Globais, que revela que o deslocamento forçado global diminuiu pela primeira vez em uma década, embora continue em níveis inaceitavelmente altos: 117,8 milhões de pessoas.
Em 2025, 5,4 milhões de pessoas escaparam da violência e da perseguição ao cruzar fronteiras internacionais. No entanto, o relatório mostra que os retornos também estão ganhando ritmo: 14,7 milhões de pessoas deslocadas retornaram às suas regiões ou países de origem em 2025 (4,4 milhões de refugiados e 10,3 milhões de deslocados internos), com aumento significativo no Afeganistão, Sudão e Síria. Os retornos de refugiados foram os segundos maiores já registrados em 60 anos, embora muitos tenham ocorrido sob pressão e em condições precárias nos países de origem.
De forma geral, os dados indicam que o número global de refugiados caiu 3% em 2025, totalizando 41,6 milhões. Em um avanço positivo, quase 46 mil pessoas apátridas adquiriram cidadania em 24 países no ano passado.
Com 70% dos refugiados presos em exílio por anos e muitos vivendo abaixo da linha da pobreza, Salih também fez um apelo à comunidade internacional a apoiar uma nova iniciativa para retirar milhões de pessoas do deslocamento prolongado e da dependência de ajuda humanitária.
“Para muitos refugiados, o deslocamento começa como uma tábua de salvação, mas dura a vida inteira”, afirmou Salih.
“A ajuda humanitária salva vidas, mas não é o objetivo final e não permite que as pessoas refugiadas se tornem agentes ativos no controle de seu próprio futuro. Precisamos de uma mudança de paradigma que crie um senso de esperança e oportunidade para pessoas que fogem da guerra e da perseguição.”
As Américas: uma região de deslocamento e líder em soluções
O deslocamento forçado nas Américas continuou a crescer, chegando a 22,8 milhões de pessoas, impulsionado principalmente por deslocamentos originados de e/ou dentro do Haiti, Nicarágua, norte da América Central, Colômbia e Venezuela. As Américas são agora a principal região do mundo em deslocamento forçado, seguidas pela África Oriental e Austral, e pelo Oriente Médio e Norte da África.
As pessoas venezuelanas continuam sendo uma das maiores populações deslocadas do mundo, com a maioria (97%) acolhida na América Latina e no Caribe. No entanto, os retornos à Venezuela aumentaram nos últimos anos. Uma pesquisa recente do ACNUR em seis países de acolhida revelou que cerca de 9% das pessoas venezuelanas deslocadas planejam retornar no prazo de um ano, o que destaca a necessidade de apoiar tanto a inclusão nos países de acolhida quanto as condições para um retorno seguro e sustentável.
Ao mesmo tempo, a região das Américas se destaca por sua liderança na promoção de solidariedade e soluções, demonstrando que inclusão e compartilhamento de responsabilidades geram resultados concretos.
A Colômbia é o maior país acolhedor do mundo, recebendo 2,8 milhões de refugiados e outras pessoas em necessidade de proteção internacional, principalmente da Venezuela. Seus amplos esforços de regularização permitiram que milhões trabalhassem, acessassem serviços e contribuíssem de forma significativa para as economias e comunidades locais.
Em toda a região, outros países também vêm expandindo suas abordagens, passando de respostas emergenciais para políticas de inclusão e autonomia. Países como Brasil, México e Costa Rica implementaram práticas inovadoras, incluindo acesso à documentação, integração no mercado de trabalho e parcerias com o setor privado.
“Nas Américas, solidariedade e compartilhamento de responsabilidades não são conceitos abstratos, eles geram resultados reais para as pessoas e as sociedades”, afirmou o oficial a Cargo para as Américas do ACNUR, Juan Carlos Murillo.
“Do Brasil ao México, do Peru ao Equador, do Canadá à Colômbia e além, os países estão mostrando que, quando os refugiados são incluídos, eles contribuem, as economias crescem e as comunidades são fortalecidas. É assim que se parecem as soluções na prática.”
Um esforço global para encerrar o deslocamento prolongado
Com a maioria dos refugiados em situações prolongadas vivendo em países de baixa e média renda, Salih pediu uma mudança significativa de abordagem por meio de uma iniciativa que visa reduzir pela metade, ao longo da próxima década, o número de refugiados em deslocamento prolongado dependentes da ajuda humanitária.
“O asilo e a proteção salvam vidas e não estão em debate, mas não podemos aceitar um futuro em que milhões de refugiados permaneçam presos por anos ou décadas sem perspectivas reais de reconstruir suas vidas”, afirmou Salih.
“Agora temos uma meta ambiciosa, alcançável e mensurável para promover a autonomia e transformar vidas para melhor. O ACNUR mobilizará esforços em toda a sociedade para enfrentar esse desafio e criar caminhos que tirem milhões da rotina exaustiva do deslocamento prolongado.”
A iniciativa concentra-se na ampliação dos retornos voluntários, que continuam sendo a principal solução; no aumento do acesso à educação, saúde, serviços financeiros e mercados de trabalho; e na expansão do reassentamento, da reunificação familiar e de vias complementares. Defende também o fortalecimento de parcerias com governos, atores de desenvolvimento, setor privado e sociedade civil, especialmente em países de baixa e média renda, que acolhem a maioria dos refugiados.
Neste sentido, Brasil tem se destacado globalmente por manter políticas de acolhimento e inclusão que permitem as pessoas deslocadas de forma forçada reconstruírem suas vidas com dignidade.
“O Brasil possui uma legislação vanguardista que concede documentação e acesso aos serviços públicos do país, garantindo às pessoas em busca de proteção internacional o direito à saúde, educação e trabalho. O setor privado brasileiro tem demonstrado cada vez mais apoio em abrir portas e oportunidades para que estas pessoas possam contribuir com seus conhecimentos e talentos para o país. O compromisso do governo federal em expandir o programa de patrocínio comunitário é também louvável. Estes são exemplos concretos de como a proteção internacional pode caminhar lado a lado ao desenvolvimento e à inclusão social”, reforça o representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli.
No ano marcado pelo 75º aniversário da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados, o plano do ACNUR para os próximos dez anos também apela à intensificação dos esforços para preservar o asilo e a proteção, que continuam sendo mais cruciais do que nunca.
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Fonte: brasil.un.org
